Pessoas, Andreia mandou essa dica, bem interessante.
abrs, leandro
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/09/25/materia.2009-09-25.8507493319/view
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Avelar e Risério
O livro do ano
Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.
É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.
Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.
É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.
Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.
Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.
Texto de Idelber Avelar em
http://www.idelberavelar.com/archives/2008/01/antonio_riserio_a_utopia_brasileira_e_os_movimentos_negros_1.php
Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.
É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.
Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.
É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.
Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.
Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.
Texto de Idelber Avelar em
http://www.idelberavelar.com/archives/2008/01/antonio_riserio_a_utopia_brasileira_e_os_movimentos_negros_1.php
Paim e Risério
Discutir e condenar o racismo emergente
Antonio Paim
Entre nós, a discussão substantiva de certos temas deixa muito a desejar. Atribuo a circunstância a certa acomodação com o patrulhamento ideológico, vigente em áreas da universidade e instâncias do governo, notadamente da educação. Essa acomodação pode ter resultado de duas coisas: reconhecimento da inutilidade do gesto ou graças à "cortina de ferro" que se tem conseguido estabelecer em torno daquilo que incomoda.
Não parece muito difícil verificar que o patrulhamento hoje é igual ou maior do que o que existia em 1978, há 30 anos, portanto, quando a censura a um texto de Miguel Reale, na PUC do Rio de Janeiro, provocou grande celeuma, refletida no título do livro que editei, reunindo artigos dos dois lados - Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária: um Debate Memorável (Artenova, 1979). Desapareceu mesmo foi a discussão pública.
Chamo a atenção para esse aspecto com a intenção de evitar que se construa uma cortina de silêncio em torno das teses apresentadas por Antonio Risério em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 2007). Acham-se extremamente bem documentadas e são as seguintes: os atuais movimentos negros renegaram a tradição da abordagem do assunto, que, no Brasil, estava centrada na questão da cor. O máximo que se pretendeu nessa matéria consistiu em recomendar o branqueamento, que não deixava de ser uma capitulação diante da mistura, da mescla, da miscigenação. Mais importante que essa advertência é a comprovação de que se trata simplesmente de macaquear modelo alienígena.
Transcrevo: "Não devemos desconhecer a realidade em que nos movemos. Não devemos ceder à tentação das fantasias fáceis, dos truques ideológicos, dos artifícios jurídicos, dos maniqueísmos simplificadores. Não devemos nos contentar com a transposição mecânica, para a realidade sociorracial brasileira, de discurso político-acadêmico em vigor nos EUA, cujas história, formação e situação são radicalmente dessemelhantes da nossa experiência como povo e nação. Pelo contrário: temos de recusar o imperialismo cultural norte-americano, que pretende universalizar os seus modelos e os seus particularismos. E temos de partir de nós mesmos. É por isso que insisto que não temos nenhuma forte razão para substituir o rico espectro cromático brasileiro pelo rígido padrão racial norte-americano - ainda mais que, nos EUA, cresce a mobilização em favor do reconhecimento social da existência de mestiços, com um número cada vez maior de pessoas reivindicando a inclusão da categoria mixed-race no censo (e no senso) da nação. De outra parte, acho que não devemos perder muito tempo fazendo essas comparações.
Esclareçamos as coisas básicas e, depois, o melhor é deixar os EUA de lado - e nos concentrarmos em nossos muitos e urgentes problemas. Mas o certo é que ninguém vai entender o Brasil se não encarar, em toda a sua abrangência e complexidade, os fenômenos fundamentais da mestiçagem e do sincretismo" (edição citada, pág. 411).
Risério procurou reconstituir toda a discussão em torno da escravatura, inclusive a noção (perdida) de que a sua aceitação não se limitava à "classe dominante", sendo inclusive prática existente e reconhecida entre os próprios escravos. Essa recuperação se estende ao movimento abolicionista. A contribuição dos africanos à nossa civilização se acha suficientemente valorizada, sem embargo da ênfase na falta de sentido de deixar de proclamar que a descendência reconhece (e proclama) ser brasileira.
Detém-se também no que denominou "movimentos negros hoje", buscando recuperar antecedentes imediatos esquecidos. A transição da tradicional classificação da população, como sendo de cor, para denominá-la "negra", se encontra fartamente documentada e discutida. Denuncia com propriedade a falácia de seus defensores ao afirmar que estariam passando do "biológico para o político" como "artifício ideológico para neutralizar ou encobrir o fato genético, a mistura de genes". A conclusão é a seguinte: "O racialismo neonegro, que vinha há tempo conseguindo algum espaço no governo federal, deixou o entrincheiramento burocrático e se instalou abertamente na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, desde a posse de Lula.
"A substituição do nosso comportamento tradicional pelo modelo norte-americano introduz em nosso meio postura nitidamente racista. Não se trata, como adverte Risério, de negar a existência de preconceito entre nós. Mas de destacar que corresponde a preconceito de cor, condenável enquanto convicção individual. À sociedade compete impedir que se transforme em discriminação, que só poderia resultar de uma ação coletiva, o que, aliás, nunca houve no País. Não se tem notícia da existência de algo parecido com a norte-americana Ku Klux Klan.
O que me parece mais grave no racismo de tais movimentos consiste em que as políticas que têm conseguido obter correspondem a equívoco funesto. A médio e longo prazos, trarão prejuízos definitivos tanto a instituições como a indivíduos. É óbvio que a obtenção de títulos acadêmicos, mediante ingresso na universidade por meio de cotas, disseminará indevidamente a pecha de incompetente a pessoas que, sendo bem dotadas, poderiam alcançá-los sem benesses. Quanto ao acesso à universidade dos que, por dificuldades econômicas, não tiveram condições de se preparar de forma a enfrentar a competição, a política adequada consiste em proporcionar-lhes bolsas que lhes permitam ingressar pela porta da frente.
Antonio Paim é presidente do Conselho Acadêmico do Instituto de Humanidades. Site: http://www.institutodehumanidades.com.br/
Antonio Paim
Entre nós, a discussão substantiva de certos temas deixa muito a desejar. Atribuo a circunstância a certa acomodação com o patrulhamento ideológico, vigente em áreas da universidade e instâncias do governo, notadamente da educação. Essa acomodação pode ter resultado de duas coisas: reconhecimento da inutilidade do gesto ou graças à "cortina de ferro" que se tem conseguido estabelecer em torno daquilo que incomoda.
Não parece muito difícil verificar que o patrulhamento hoje é igual ou maior do que o que existia em 1978, há 30 anos, portanto, quando a censura a um texto de Miguel Reale, na PUC do Rio de Janeiro, provocou grande celeuma, refletida no título do livro que editei, reunindo artigos dos dois lados - Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária: um Debate Memorável (Artenova, 1979). Desapareceu mesmo foi a discussão pública.
Chamo a atenção para esse aspecto com a intenção de evitar que se construa uma cortina de silêncio em torno das teses apresentadas por Antonio Risério em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 2007). Acham-se extremamente bem documentadas e são as seguintes: os atuais movimentos negros renegaram a tradição da abordagem do assunto, que, no Brasil, estava centrada na questão da cor. O máximo que se pretendeu nessa matéria consistiu em recomendar o branqueamento, que não deixava de ser uma capitulação diante da mistura, da mescla, da miscigenação. Mais importante que essa advertência é a comprovação de que se trata simplesmente de macaquear modelo alienígena.
Transcrevo: "Não devemos desconhecer a realidade em que nos movemos. Não devemos ceder à tentação das fantasias fáceis, dos truques ideológicos, dos artifícios jurídicos, dos maniqueísmos simplificadores. Não devemos nos contentar com a transposição mecânica, para a realidade sociorracial brasileira, de discurso político-acadêmico em vigor nos EUA, cujas história, formação e situação são radicalmente dessemelhantes da nossa experiência como povo e nação. Pelo contrário: temos de recusar o imperialismo cultural norte-americano, que pretende universalizar os seus modelos e os seus particularismos. E temos de partir de nós mesmos. É por isso que insisto que não temos nenhuma forte razão para substituir o rico espectro cromático brasileiro pelo rígido padrão racial norte-americano - ainda mais que, nos EUA, cresce a mobilização em favor do reconhecimento social da existência de mestiços, com um número cada vez maior de pessoas reivindicando a inclusão da categoria mixed-race no censo (e no senso) da nação. De outra parte, acho que não devemos perder muito tempo fazendo essas comparações.
Esclareçamos as coisas básicas e, depois, o melhor é deixar os EUA de lado - e nos concentrarmos em nossos muitos e urgentes problemas. Mas o certo é que ninguém vai entender o Brasil se não encarar, em toda a sua abrangência e complexidade, os fenômenos fundamentais da mestiçagem e do sincretismo" (edição citada, pág. 411).
Risério procurou reconstituir toda a discussão em torno da escravatura, inclusive a noção (perdida) de que a sua aceitação não se limitava à "classe dominante", sendo inclusive prática existente e reconhecida entre os próprios escravos. Essa recuperação se estende ao movimento abolicionista. A contribuição dos africanos à nossa civilização se acha suficientemente valorizada, sem embargo da ênfase na falta de sentido de deixar de proclamar que a descendência reconhece (e proclama) ser brasileira.
Detém-se também no que denominou "movimentos negros hoje", buscando recuperar antecedentes imediatos esquecidos. A transição da tradicional classificação da população, como sendo de cor, para denominá-la "negra", se encontra fartamente documentada e discutida. Denuncia com propriedade a falácia de seus defensores ao afirmar que estariam passando do "biológico para o político" como "artifício ideológico para neutralizar ou encobrir o fato genético, a mistura de genes". A conclusão é a seguinte: "O racialismo neonegro, que vinha há tempo conseguindo algum espaço no governo federal, deixou o entrincheiramento burocrático e se instalou abertamente na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, desde a posse de Lula.
"A substituição do nosso comportamento tradicional pelo modelo norte-americano introduz em nosso meio postura nitidamente racista. Não se trata, como adverte Risério, de negar a existência de preconceito entre nós. Mas de destacar que corresponde a preconceito de cor, condenável enquanto convicção individual. À sociedade compete impedir que se transforme em discriminação, que só poderia resultar de uma ação coletiva, o que, aliás, nunca houve no País. Não se tem notícia da existência de algo parecido com a norte-americana Ku Klux Klan.
O que me parece mais grave no racismo de tais movimentos consiste em que as políticas que têm conseguido obter correspondem a equívoco funesto. A médio e longo prazos, trarão prejuízos definitivos tanto a instituições como a indivíduos. É óbvio que a obtenção de títulos acadêmicos, mediante ingresso na universidade por meio de cotas, disseminará indevidamente a pecha de incompetente a pessoas que, sendo bem dotadas, poderiam alcançá-los sem benesses. Quanto ao acesso à universidade dos que, por dificuldades econômicas, não tiveram condições de se preparar de forma a enfrentar a competição, a política adequada consiste em proporcionar-lhes bolsas que lhes permitam ingressar pela porta da frente.
Antonio Paim é presidente do Conselho Acadêmico do Instituto de Humanidades. Site: http://www.institutodehumanidades.com.br/
Livro na net
oi, por acaso achei o livro do Riserio na net. quem quiser ler além dos dois capítulos que selecionei, vá em
http://books.google.com.br/books?id=W-fYKx73-wcC&pg=PA15&lpg=PA15&dq=A+utopia+brasileira+e+os+movimentos+negros+cr%C3%ADtica+Ris%C3%A9rio&source=bl&ots=UBcqu_mPj7&sig=h_P5_xa4FcVT8xENno22mxTbilw&hl=pt-BR&ei=2Ei5Sob9NcS_tgeQrcX0Dg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1#v=onepage&q=&f=false
http://books.google.com.br/books?id=W-fYKx73-wcC&pg=PA15&lpg=PA15&dq=A+utopia+brasileira+e+os+movimentos+negros+cr%C3%ADtica+Ris%C3%A9rio&source=bl&ots=UBcqu_mPj7&sig=h_P5_xa4FcVT8xENno22mxTbilw&hl=pt-BR&ei=2Ei5Sob9NcS_tgeQrcX0Dg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1#v=onepage&q=&f=false
Texto sobre livro de Risério
A sedução da raça
Abraham Lincoln será sempre lembrado como o presidente que suprimiu a escravidão nos Estados Unidos. Mas ele, como tantos outros na mesma época, era um defensor do "retorno à África" dos negros americanos. Em 1862, perante um grupo de negros que convocou à Casa Branca, disse: "Vós e nós somos raças diferentes. Pouco importa se isto é verdadeiro ou falso, mas o certo é que esta diferença física é uma desvantagem mútua, pois penso que muitos de vós sofrem enormemente ao viver entre nós, ao passo que os nossos sofrem com a vossa presença."
Quase um século mais tarde, Davis Knight, um rapaz do Mississipi, foi condenado à prisão por ter violado a lei que proibia a miscigenação. Para condená-lo, o Estado provou algo que ele desconhecia: uma de suas bisavós fora escrava, quando criança, e portanto ele tinha "sangue negro", mesmo que em proporção inferior a 1/16 avos.
Os dois eventos estão em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros, de Antonio Risério, um daqueles raros livros para os quais cabe o adjetivo essencial. São 16 ensaios articulados por um cabo de aço que é a revolta intelectual contra a importação das políticas raciais americanas. Nos EUA, a regra da "gota de sangue única" divide a sociedade em raças que são, por definição, puras. No Brasil, os movimentos "neonegros", como os define Risério, engajam-se na invenção de um país inexistente para imitar o modelo americano, fabricando a raça nas leis com a esperança de incuti-la nas consciências.
Pureza racial. O ideal ariano, objetivamente contraditório com as mestiçagens práticas e simbólicas de um mundo de fluxos acelerados, só pode existir pelos meios da interdição ofi cial, como no Mississipi do passado recente, ou da classificação racial estatal, como pregam os racialistas no Brasil. Na apresentação de um livro do antrópologo da USP Kabengele Munanga, alerta-se para "os prejuízos que a mestiçagem vem causando ao negro no Brasil". A melodia da raça pura é a estrela fixa na trajetória aparentemente paradoxal de Abdias do Nascimento, ícone dos movimentos negros brasileiros, que bateu ponto no integralismo, ergueu a bandeira do nacionalismo progressista e da "democracia racial" e, depois de uma estadia nos EUA, converteu-se em porta-voz iracundo das atuais políticas racialistas. Risério insere cada coisa no seu contexto histórico, desarmando os rasos discursos ideológicos dos intelectuais "neonegros".
A escritura de Risério é uma declaração de amor ao Brasil, mas de um amor isento da paixão cega que tolda a crítica. Ele não nega o racismo: pelo contrário, identifica a sua presença intersticial, difusa e abrangente. Sobretudo, evidencia a diferença crucial entre o "nosso" racismo e o "deles" (o dos EUA). Aqui, o racismo frutificou como programa de branqueamento; lá, como congelamento oficial e cultural da separação entre raças. Mas o "nosso" programa de branqueamento fracassou, estilhaçando-se de encontro à mestiçagem. Como revelam os dados censitários, a mestiçagem brasileira tende a eliminar tanto os "negros" quanto os "brancos", dinamitando as bases sociais das políticas de raça. Os intelectuais "neonegros" e os movimentos que os seguem representam uma resposta reacionária a esse processo: uma tentativa de restauração do conceito anacrônico de raça.
Na apresentação da obra, Risério reclama um honesto debate de ideias. O seu livro inspirado merece coisa melhor que os previsíveis insultos dos fanáticos da raça e os encômios vazios dos aduladores.
E, de fato, há nele algo fora do lugar: aqui e ali, a lâmina de sua crítica perde o corte, enredando-se na armadilha do pensamento racial. Dessa armadilha, emerge um mestiço definido como objetividade biológica, isto é, como entidade pré-política, amparada no intercâmbio genético e nas profundezas da cultura. Esse mestiço "natural", uma figuração antiga do povo brasileiro, remete o debate de volta para o túnel romântico da ancestralidade, que é o campo de ação dos racialistas. Não se trata de negar a extraordinária amplitude do intercâmbio genético no Brasil, mas de insistir naquilo que Gilberto Freyre já havia registrado: somos todos mestiços, independentemente de nossas árvores genealógicas, pois é assim que nos enxergamos e definimos.
Wolfgang Gabbert sugere traduzir a etnicidade como um fenômeno de diferenciação social no qual os atores escolhem marcadores culturais ou fenotípicos para distinguir a si próprios dos demais. Isso significa que a etnia, tanto quanto a nação, é uma "comunidade imaginada" - e que ela surge na instância política. A "raça pura" não existe nos EUA (ou, em geral, no mundo), mas pode ser inventada de modo eficaz pela regra da "gota de sangue única". A divisão bipolar do Brasil em "brancos" e "negros" contraria a biologia e nossa experiência histórica - mas pode ser fabricada por um Estado que se engaja na classificação étnica dos brasileiros e na imposição de leis raciais.
Risério fecha os olhos para esse perigo real precisamente por acreditar demais nas permanências da biologia e da cultura. O Brasil não é os EUA, nem a África do Sul ou Ruanda. Mas a mestiçagem é um plebiscito cotidiano, não um talismã que nos protege da sedução da raça e do cortejo de violências que sempre a acompanha.
Jorge Demétrio Magnoli, é sociólogo, doutor em geografia humana pela USP, integrante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional da USP (Gacint) e colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo.
em http://desafios2.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=11108&btImprimir=SIM
Abraham Lincoln será sempre lembrado como o presidente que suprimiu a escravidão nos Estados Unidos. Mas ele, como tantos outros na mesma época, era um defensor do "retorno à África" dos negros americanos. Em 1862, perante um grupo de negros que convocou à Casa Branca, disse: "Vós e nós somos raças diferentes. Pouco importa se isto é verdadeiro ou falso, mas o certo é que esta diferença física é uma desvantagem mútua, pois penso que muitos de vós sofrem enormemente ao viver entre nós, ao passo que os nossos sofrem com a vossa presença."
Quase um século mais tarde, Davis Knight, um rapaz do Mississipi, foi condenado à prisão por ter violado a lei que proibia a miscigenação. Para condená-lo, o Estado provou algo que ele desconhecia: uma de suas bisavós fora escrava, quando criança, e portanto ele tinha "sangue negro", mesmo que em proporção inferior a 1/16 avos.
Os dois eventos estão em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros, de Antonio Risério, um daqueles raros livros para os quais cabe o adjetivo essencial. São 16 ensaios articulados por um cabo de aço que é a revolta intelectual contra a importação das políticas raciais americanas. Nos EUA, a regra da "gota de sangue única" divide a sociedade em raças que são, por definição, puras. No Brasil, os movimentos "neonegros", como os define Risério, engajam-se na invenção de um país inexistente para imitar o modelo americano, fabricando a raça nas leis com a esperança de incuti-la nas consciências.
Pureza racial. O ideal ariano, objetivamente contraditório com as mestiçagens práticas e simbólicas de um mundo de fluxos acelerados, só pode existir pelos meios da interdição ofi cial, como no Mississipi do passado recente, ou da classificação racial estatal, como pregam os racialistas no Brasil. Na apresentação de um livro do antrópologo da USP Kabengele Munanga, alerta-se para "os prejuízos que a mestiçagem vem causando ao negro no Brasil". A melodia da raça pura é a estrela fixa na trajetória aparentemente paradoxal de Abdias do Nascimento, ícone dos movimentos negros brasileiros, que bateu ponto no integralismo, ergueu a bandeira do nacionalismo progressista e da "democracia racial" e, depois de uma estadia nos EUA, converteu-se em porta-voz iracundo das atuais políticas racialistas. Risério insere cada coisa no seu contexto histórico, desarmando os rasos discursos ideológicos dos intelectuais "neonegros".
A escritura de Risério é uma declaração de amor ao Brasil, mas de um amor isento da paixão cega que tolda a crítica. Ele não nega o racismo: pelo contrário, identifica a sua presença intersticial, difusa e abrangente. Sobretudo, evidencia a diferença crucial entre o "nosso" racismo e o "deles" (o dos EUA). Aqui, o racismo frutificou como programa de branqueamento; lá, como congelamento oficial e cultural da separação entre raças. Mas o "nosso" programa de branqueamento fracassou, estilhaçando-se de encontro à mestiçagem. Como revelam os dados censitários, a mestiçagem brasileira tende a eliminar tanto os "negros" quanto os "brancos", dinamitando as bases sociais das políticas de raça. Os intelectuais "neonegros" e os movimentos que os seguem representam uma resposta reacionária a esse processo: uma tentativa de restauração do conceito anacrônico de raça.
Na apresentação da obra, Risério reclama um honesto debate de ideias. O seu livro inspirado merece coisa melhor que os previsíveis insultos dos fanáticos da raça e os encômios vazios dos aduladores.
E, de fato, há nele algo fora do lugar: aqui e ali, a lâmina de sua crítica perde o corte, enredando-se na armadilha do pensamento racial. Dessa armadilha, emerge um mestiço definido como objetividade biológica, isto é, como entidade pré-política, amparada no intercâmbio genético e nas profundezas da cultura. Esse mestiço "natural", uma figuração antiga do povo brasileiro, remete o debate de volta para o túnel romântico da ancestralidade, que é o campo de ação dos racialistas. Não se trata de negar a extraordinária amplitude do intercâmbio genético no Brasil, mas de insistir naquilo que Gilberto Freyre já havia registrado: somos todos mestiços, independentemente de nossas árvores genealógicas, pois é assim que nos enxergamos e definimos.
Wolfgang Gabbert sugere traduzir a etnicidade como um fenômeno de diferenciação social no qual os atores escolhem marcadores culturais ou fenotípicos para distinguir a si próprios dos demais. Isso significa que a etnia, tanto quanto a nação, é uma "comunidade imaginada" - e que ela surge na instância política. A "raça pura" não existe nos EUA (ou, em geral, no mundo), mas pode ser inventada de modo eficaz pela regra da "gota de sangue única". A divisão bipolar do Brasil em "brancos" e "negros" contraria a biologia e nossa experiência histórica - mas pode ser fabricada por um Estado que se engaja na classificação étnica dos brasileiros e na imposição de leis raciais.
Risério fecha os olhos para esse perigo real precisamente por acreditar demais nas permanências da biologia e da cultura. O Brasil não é os EUA, nem a África do Sul ou Ruanda. Mas a mestiçagem é um plebiscito cotidiano, não um talismã que nos protege da sedução da raça e do cortejo de violências que sempre a acompanha.
Jorge Demétrio Magnoli, é sociólogo, doutor em geografia humana pela USP, integrante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional da USP (Gacint) e colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo.
em http://desafios2.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=11108&btImprimir=SIM
Dica
Pessoas, leiam as entrevistas de Risério, concedidas na época do lançamento do livro A Utopia brasileira e os movimentos negros, que discutiremos amanhã.
Em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2696371-EI6608,00-Uma+entrevista+um.html
e em http://www.idelberavelar.com/archives/2007/11/antonio_riserio_a_utopia_brasileira_e_os_movimentos_negros.php
abrs
Em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2696371-EI6608,00-Uma+entrevista+um.html
e em http://www.idelberavelar.com/archives/2007/11/antonio_riserio_a_utopia_brasileira_e_os_movimentos_negros.php
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